Os portugueses e a sua relação com a voz

Se pudéssemos ver a nossa voz no seu mais ínfimo detalhe, qual microscópio observando as células de um organismo, esta poderia ser vista assim…

Vídeo 1. Representação visual do som
(software SoundField criado por Svante Granqvist, Suécia)

A voz, tal como qualquer outro som que se propaga no ar, propaga-se pelo movimento de uma infinidade de particulas de ar (pontos brancos no vídeo). Consoante a dispersão ou compressão destas partículas, são criados pontos de maior ou menor pressão, que se podem repetir com uma determinada frequência e intensidade, criando um conjunto de ondas sinusoidais. Estas ondas, ao serem somadas, produzem um determinado som, cujas características físicas dependem da fonte sonora que o produziu. No caso da voz, a fonte sonora corresponde à interrupção do ar entre as pregas vocais (ar transgótico) aquando da sua vibração. Deste modo,  poder-se-á considerar que a voz é, na sua essência e de um modo bastante simplificado, ar em movimento.

Mas antes de falarmos da voz e de como ela é produzida de um ponto de vista fisiológico, acústico e aerodinâmico ou da complexidade do seu controlo neurológico, vamos ver o que os Portugueses pensam da sua voz.

Em Portugal, o sector que maior número de pessoas emprega é o terciário, precisamente onde se encontram incluídos os profissionais da voz. Nos EUA sabe-se que a voz constitui uma ferramenta de trabalho essencial para cerca de 30% da população [1]. E em Portugal? Que percentagem da população ativa portuguesa depende da sua voz para trabalhar? O que fazem os portugueses com a sua voz? O que fazem quando ficam roucos? Que música vocal preferem?

Estas são algumas das questões que gostaríamos de ver respondidas, pelo que fizemos um inquérito online onde foram colocadas estas questões. Outras questões incluídas relacionaram-se com o tipo de ocupação profissional, aos hábitos e práticas e cuidados vocais.

Quem participou neste estudo?

Ao questionário divulgado nas redes sociais responderam 524 pessoas: 68% (n=356) mulheres e 32% (n=168) homens, entre os 18 e os 75 anos, distribuídas geograficamente por todo o país. O distrito de Coimbra foi o que teve maior representação com 37% (n=194) das respostas, seguido do de Aveiro (16%, n=84), Lisboa (11%, n=58) e Porto (10%, n=52).

Qual a ocupação profissional mais representada neste inquérito?

Os profissionais da voz são o grupo profissional mais representado (59%, n=309) neste questionário.

Figura 1. Percentagem de inquiridos que são (ou já foram) profissionais da voz e os que exercem (ou exerceram) outro tipo de ocupação profissional

O que é um profissional da voz?

Todo o indivíduo que requer um uso intensivo da sua voz para trabalhar, ou depende de características vocais específicas é um profissional da voz. Incluem-se portanto professores, cantores, atores, locutores de rádio e televisão, jornalistas, padres, profissionais de vendas, advogados, políticos, técnicos administrativos e profissionais de saúde. E neste estudo, qual destas profissões tem maior representatividade?

Figura 2. Distribuição de inquiridos por ocupação profissional

À semelhança do que se verifica noutros países como por exemplo na Coreia do Sul [2] e na Suécia [3], também neste estudo os professores são os profissionais da voz mais representados (25%, n=131).

Qual a relevância da voz para estes inquiridos?

A voz é extremamente importante para a maior parte dos inquiridos (63%). Ninguém respondeu que a voz não é nada importante.

Figura 3. Ordenação de respostas de acordo com o importância dada à voz (n=524)

Relativamente à apreciação que cada um faz da sua voz, já houve quem respondesse negativamente. A maior parte das respostas encontram-se numa categoria positiva, mas não a mais elevada.

Figura 4. Ordenação de respostas de acordo com apreciação da voz (n=524)

Resultados semelhantes foram observados quando se questionou sobre a existência de uma identidade vocal, i.e. se cada um se identifica com a voz que possui.

Figura 5. Ordenação de respostas de acordo com identidade vocal (n=524)

 

 

Muitos foram os que responderam que a qualidade do trabalho depende em muito da qualidade da sua voz (67%, n=355).

Figura 6. Ordenação de respostas de acordo com o grau de dependência entre a qualidade de execução da sua profissão e a qualidade da sua voz (n=524)

A maior parte dos inquiridos (54%, n=28) referiu fazer um uso constante da voz no seu dia-a-dia.

Figura 7. Ordenação de respostas de acordo com uso diário da voz (n=524)

Como cuidam estes portugueses da sua voz?

Das respostas anteriormente dadas, torna-se claro que a voz possui grande importância para a maior parte dos Portugueses aqui entrevistados. Deste modo, espera-se algum grau de preocupação com a saúde da voz, principalmente no grupo de profissionais da voz, já que para estes, o risco de desenvolvimento de patologias vocais relacionadas com abuso vocal é bastante elevado, riscos esses comparáveis aos de exposição a químicos perigosos ou ao sol [4]. As mulheres são mais propensas a patologias vocais ocupacionais do que os homens [5], apresentando um maior número de doenças crónicas associadas a comportamentos de abuso vocal (46.3% versus 36.9%, e 20.9% versus 13.3%, respetivamente) [6]. Estas diferenças de género devem-se em parte a diferenças morfológicas, funcionais e endócrinas entre homens e mulheres. Por exemplo, a fonação nas mulheres requer um maior número de colisões das pregas vocais por segundo, uma vez que as suas pregas vocais, trato vocal e pressões pulmonares são mais pequenas [7,8]. Por outro lado, as mulheres possuem variações endócrinas associadas ao desenvolvimento biológico do seu sistema reprodutor [9,10], expondo-as a um maior risco de patologias vocais do que os homens.

Em Portugal, embora o número de mulheres que procura consultas de otorrinolaringologia seja menor do que o número de homens, entre 2011 e 2016, o número médio de mulheres que procuram consultas de otorrinolaringologia (ORL)  aumentou em Portugal.

Figura 8. Número de pacientes que recorrem aos serviços de otorrinolaringologia desde 2011 a 2016, distribuídos por ano e sexo

Contudo, estes números devem ser interpretados com alguma cautela; este aumento poderá não estar diretamente relacionada com uma aumento no número de patologias vocais, já que a especialidade de ORL não é exclusiva ao diagnostico e tratamento de patologias relacionadas com a voz.

Figura 9. Ordenação de respostas de acordo com cuidados vocais (n=524)

Observou-se também que uma percentagem mais elevada de inquiridos reportou não ter cuidados com a voz comparativamente aos que têm um cuidado extremo (40% versus 29%). Uma possível explicação para estes resultados poderá ser o facto da grande maioria dos participantes nunca ter tido um problema vocal (79% versus 21%) ou ter recorrido à especialidade de ORL por causa de um problema vocal (74%).

O que fazem estes portugueses quando ficam roucos?

Figura 10. Comportamentos adoptados perante casos de rouquidão (n=524)

Quando ficam roucos, ir ao médico não será a primeira opção destes portugueses (22%). A primeira escolha é a de  tomar pastilhas para a garganta (32%) ou beber um chá (26%).

Cuidar da voz é importante? E cantar faz bem?

Pacientes com patologias vocais apresentam uma qualidade de vida bastante baixa quando comparada com outro tipo de doenças [11,12]. Daqui se compreende que possuir um distúrbio vocal pode afetar em muito a vida de uma pessoa. Uma outra motivação igualmente importante para cuidarmos da nossa voz, prevenindo patologias associadas com o uso e abuso vocal com educação vocal e hábitos de higiene vocal está relacionada com o facto de que cantar faz bem! Afinal, o ditado popular que reza “quem canta seus males espanta” parece ser bem verdade.

A participação em atividades que envolvam cantar em grupo é uma forma de terapia [13,14] e um recurso de saúde pública [15,16].

O canto é uma das atividades criativas mais apreciadas no mundo inteiro, contribuindo para a satisfação pessoal [17] e integração e coesão sociais [18]. Cantar promove a saúde e o bem estar físicos [19]. Pacientes que possuem afasia (i.e. incapacidade para falar) consequente de um acidente vascular cerebral que afeta os centros cerebrais responsáveis pela fala (áreas de Wernicke e da Broca) recuperam a fala de uma forma mais rápida e eficiente quando a terapia adoptada inclui ritmo e melodia, i.e. Terapia de Entoação Melódica Adaptada [20]. Outros benefícios relacionados com o canto incluem a promoção de saúde mental [21,22], o bem-estar psicológico [23] e emocional [24] e o desenvolvimento cognitivo [25], especialmente o das crianças [26].

Gostam estes portugueses de cantar?

A maior parte destes portugueses indicou não gostar de se ouvir cantar (43% versus 33%). Ainda assim, preferem música cantada à música instrumental.

Figura 11. Ordenação de respostas de acordo com o gosto pela sua voz cantada (n=524)

O género musical cantado da preferencia de um maior número de inquiridos é a música comercial (ex. pop/rock) (63%, n=332), seguida de Jazz (42%, n=222), Fado (40%, n= 211), baladas de autores portugueses (38%, n=197) e música erudita (32%, n=166).

Estamos interessados em fazer algo pela nossa voz?

Uma esmagadora parte dos inquiridos demonstrou interesse em poder vir a frequentar aulas de canto/ técnica vocal (90%, n=472). Entre os motivos apresentados para tal interesse destacam-se aprender a ter maior projeção vocal (28%, n=156), seguido de poder vir a ter uma voz mais saudável (19%, n=115) e para poder aprender a cantar (21%, n=110).

Figura 12. Justificação para a frequência de aulas de canto/ técnica vocal (n=524)

Para além de aulas de canto/ técnica vocal, estes portugueses também estariam interessados por ciência vocal, sobretudo se as atividades envolvidas pudessem estar integradas numa exposição (84%, n=440). No entanto, já seriam menos os que comprariam livros científicos sobre voz aos seus filhos (46%, n=241), ou software interativo demonstrativo de aspetos relacionadas com a produção vocal (42%, n=220).

Que podemos concluir deste estudo?

Ainda que baseado em resultados que não podem ser generalizados a todos os portugueses, pela não representatividade da amostra aqui estudada, fica-se com a ideia de que a temática da voz não é indiferente aos portugueses.

Muitos são os que indicam que a qualidade vocal é determinante na qualidade do seu trabalho e que dependem em muito da sua voz nas suas atividades diárias.

Pode-se ainda constatar que existe necessidade de educação vocal em Portugal.

Por um lado,  verifica-se alguma disparidade entre o número elevado de portugueses que atribui importância à sua voz e o número de portugueses que efetivamente gosta da sua voz e/ou se identifica com ela. Por outro lado, existe um grande interesse em aulas de canto/ técnica vocal para melhorar a eficiência e a saúde da sua voz e compreender o que está (cientificamente) por detrás da produção vocal.

A APVoz valoriza a voz enquanto elemento unificador da educação, ciência, saúde e bem-estar, cultura e lazer.  A sua voz é a “impressão digital” da sua personalidade: que dure uma vida!

Onde procurar mais informação?
  1. Titze I.R., Lemke J. & Montequim D. (1997). Populations in the U.S. Workforce Who Rely on Voice as a Primary Tool of Trade: A Preliminary Report. Journal of Voice, 11(3): 254-259.
  2. Byen H. (2017). Occupational risks for voice disorders: Evidence from a Korea national cross-sectional survey. Logopedics Phoniatrics Vocology, 42(1): 39-43
  3. Williams N.R. (2003). Occupational groups at risk of voice disorders: a review of the literature. Occupational Medicine, 53(7): 456-460.
  4. Titze I.R. & Svec J.G. (2003). Vocal Dose Measures: Quantifying Accumulated Vibration Exposure in Vocal Fold Tissues.Journal of Speech, Language, and Hearing Research, 46: 920-932.
  5. Hunter E.j., Smith M.E & Tanner K. (2011). Gender differences affecting vocal health of women in vocally demanding careers. Logopedics Phoniatrics Vocology, 36(3): 128-136.
  6. Roy N., Merrill R.M., Thibeault S., Parsa R.A., Gray, S.D. & Smith E.M. (2004). Prevalence of Voice Disorders in Teachers and the General Population. Journal of Speech, Language and Hearing Research, 47: 281-293.
  7. Klatt D.H. & Klatt L.C. (1990). Analysis, synthesis, and perception of voice quality variations among female and male talkers. Journal of Acoustic Society of America, 87: 820–857.
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  9. Lã F. & Davidson, J.W. (2005). Investigating the Relationship between Sexual Hormones and Female Western Classical Singing. Research Studies in Music Education. 24: 75-87.
  10. Lã F.M.B., Howard, D.M., Ledger, W., Davidson, J.W. & Jones, G. (2009). Oral contraceptive pill containing drospirenone and the professional voice: an electrolaryngographic analysis. Logopaedics Phoniatrics Vocology, 34 (1): 11-19.
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  15. Mellor L. (2013). An investigation of singing, health and well-being as a group process. Brithish Journal of Music, 30(2): 177-205.
  16. Bailey B.A. & Davidson J.W. (2009). Amateur Group Singing as a Theraopeutic Instrument. Nordic Journal of Music Therapy, 12(1): 18-32.
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